acompanho

o tempo salta

de hora em hora

cada vez que reparo no relógio

a tecnologia progride

a política muda

as economias quebram – ao redor do mundo.

Enquanto isso as amizades solidificam

à distância

a partir de um telefonema

voz que ecoa.

Enquanto isso o olhar aperfeiçoa

por rabiscos no papel

destrincho formas e cores

transmutando coisas em espaços

para que o pensamento caiba inteiro

porque na liberdade da abstração

habita a verdade das coisas

Recordo conversas da delicada noite anterior

Deleite de cheiros e sabores

boca, pele, pêlos.

apesar e além de tanto

o tempo não cansa

de sua eterna peregrinação

em sua insistência

eu, envelheço.

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o rio de minha infância

Quando menina sonhava com o rio Tejipió. O rio de que nunca me aproximei, e ficava logo ali, ao fim da rua onde morava. Ama, mãe e avó me proibiam de ir – diziam ser muito perigoso e por muitos anos aquele rio encerrou para mim os seus mistérios.

Lembro vivamente quando andava de bicicleta e cheguei tão próximo que meu coração bateu forte – de modo que os pássaros se espantaram e os anjos ouviram. Estava diante do desconhecido, o que constituía um perigo iminente. A qualquer momento poderia ser descoberta. E o que aconteceria se me achasse sozinha? Não podia correr tão grave risco e pedalei ofegante para longe naquele fim de tarde.

Alguns anos se passaram e hoje, contra a vontade delas, moro numa cidade distante. Continuo sob os conselhos das matronas – zelosa silenciosa e de pudores sempre atentos.

A duras penas descubro um ou outro segredo do rio sonhado. São revelações que, como por milagre, saltam da secura do ar a pôr umidade nos olhos e tremores na alma. A verdade é que meus pés percorreram um mundo de terras para que eu chegasse ao fim de minha rua. Como imagens de um sonho me vejo naquelas águas, só vistas de relance.  E, saciando desejo antigo, mergulho enfim pela primeira vez no rio tardio de minha infância.